Do valor da presença e disciplina mental
Existe um sentido no qual o exercício de pensar é uma parte intrínseca do ser humano. Não porque não poderíamos viver em um estado de mais pura presença tal como fazem os animais, mas porque nossa natureza é mais apropriada para uma abordagem diferente. Pois cada ser vivo deve fazer aquilo que, dentro das conformidades de sua capacidade, é aquilo que ele melhor consegue fazer—e isso é o significado de viver de acordo com sua natureza.
Tomemos como exemplo um animal doméstico que, devido a circunstâncias que transcendem a capacidade de seus instintos, adquire doenças evitáveis como a obesidade. Há um sentido no qual essa situação é indesejada, mas essa afirmação por si só já é um uso da razão que, para o animal, não é possível ser feita, pois vive de acordo com instintos simples como evitar qualquer tipo de sofrimento a curto prazo e abraçar qualquer tipo de prazer a curto prazo (assim evitando, por exemplo, mudanças alimentares que poderiam evitar a obesidade mas causar um bem maior no futuro). Nesse sentido, podemos identificar dois aspectos da realidade: por um lado há a objetividade de cada situação, e por outro lado há a nossa capacidade subjetiva de lidar com ela; ainda que humanos sejam dotados da razão, nossa capacidade não é infinita, e em certos aspectos certamente somos como um animal doméstico que não consegue superar suas próprias doenças por limitações em sua natureza—mas isso é uma tangente que pode ser explorada melhor em outro momento.
Parece-me evidente que cada ser vivo torna-se completo e satisfeito à medida que vive de acordo com sua natureza (que, como defini acima, significa fazer aquilo que melhor conseguimos fazer de acordo com valores objetivos mas sujeitos à nossa capacidade subjetiva). Pois, tal como um animal doméstico pode sofrer de doenças evitáveis, mas embora sinta dor ele não se sentirá “existencialmente insatisfeito”, também o ser humano pode sentir certos tipos de dores mas sem se sentir “existencialmente insatisfeito”. E podemos afirmar isso pois a capacidade de se sentir “existencialmente insatisfeito” também passa pela nossa percepção subjetiva. Se nossa percepção subjetiva não contempla nenhum elemento que, dentro dessa mesma percepção, é tido como negativo, também é impossível que essa mesma percepção seja negativa no fim das contas—pois a soma de números positivos sempre é, no final, também um número positivo. Nesse sentido, então, de onde vem essa dor à qual os seres podem ser sujeitos? Podemos apenas concluir que ela vem da própria essência da realidade, que de alguma forma é desordenada, mas isso também é uma tangente a ser explorada em outro momento.
Assim, as próximas perguntas naturais são: podemos afirmar que o uso da razão se encaixa como parte dessa natureza humana, e quais são seus limites?
Quanto à primeira (se o uso da razão se encaixa como parte de nossa natureza), parece-me evidente que sim, e isso é provado pela própria pergunta. Pois, ao questionarmos a forma como devemos viver, já não estamos fazendo um exercício que terá impacto direto na forma como nos relacionamos com a realidade? E se isso, de alguma forma, contribui para que vivamos mais ou menos próximo da nossa natureza (que é autoevidente), portanto a própria pergunta (que é um exercício do uso da razão) contribuiu para que vivamos mais ou menos próximo da nossa natureza.
E quanto à segunda (quais são seus limites) é o ponto principal desse texto, e portanto o motivo de seu título, e é ela que irei exclusivamente explorar no resto do texto.
Primeiramente, quando me refiro a “presença”, refiro-me a uma forma de supressão temporária e intencional do uso da razão. Essa supressão se relaciona com uma dimensão disciplinar no sentido que, dado que entendemos que o exercício da razão é parte fundamental de nossa natureza, também conclui-se que essa supressão não pode ser fácil, e irá exigir uma forma de “dieta” ou “jejum” análogo a um ser humano obeso que, para emagrecer, precisa aguentar o sofrimento de comer menos do que deveria por um período temporário.
Mas esse “jejum mental” é justificável? E em que sentido ele pode ser útil? Para responder essas questões, precisamos entender o motivo pelo qual a razão é parte fundamental de nossa natureza. Quando pensamos, estamos de certa forma criando uma espécie de “universo fictício”, e nesse sentido estamos nos distanciando da realidade—mas então, por que pensar nos ajuda com nossa relação com a realidade? Porque nesse universo fictício podemos fazer experimentos, discussões e outros exercícios que, além de poderem nos ajudar a levantar novas informações, também podem nos ajudar a moldar e aperfeiçoar nossas morais—e a melhor parte: tudo isso com zero consequências no mundo real. Dessa forma, podemos criar “simulações” que, caso se provem bem-sucedidas, podem então posteriormente ser aplicadas no mundo real. Mas para tudo isso temos uma premissa: que essas “simulações” serão aplicadas no mundo real; caso não sejam, então o exercício de pensar tornou-se apenas um universo fictício que permaneceu dentro da sua própria cabeça—e aí sim terá tido exatamente o efeito oposto, pois terá te afastado da realidade em vez de aproximado. Portanto, esse “jejum mental” é frequentemente não apenas desejado mas vital para que o ser humano consiga permanecer ancorado na realidade. Abaixo irei explorar algumas das consequências de se distanciar demais da realidade.
Em minha experiência, observei que não praticar esse “jejum mental” frequentemente nos leva a um estado mental de extrema miséria e tristeza. Não apenas porque nos distancia da realidade, mas porque frequentemente nem percebemos que o estamos fazendo dado o quão poderosa nossa mente é em criar experiências fictícias, assim virando uma bola de neve. E não apenas nos afastamos da realidade, mas ativamente colaboramos para destruir nossa relação com ela: quando vivemos nesses “universos fictícios” de forma permanente, estamos deixando de exercitar na realidade aquelas virtudes cuja razão existe precisamente para moldar, e assim voltamos à estaca zero: não estamos vivendo em conformidade com a natureza pois não estamos exercitando na realidade aquilo que está dentro de nossa capacidade.
Além disso, há um segundo problema que é a “dor intrínseca da realidade” que discutimos mais cedo. Sendo a nossa realidade imperfeita e contendo essa dor, esses universos fictícios de nossa mente, que são uma cópia da realidade, também a terão. Nesse sentido, viver excessivamente dentro desses universos pode passar a ter o efeito oposto: em vez de moldar suas morais buscando virtudes como a caridade, a harmonia nas relações interpessoais, os bons estímulos sensoriais etc., passa-se a buscar essa dor. Esse processo evidentemente não é intencional, pois ninguém buscaria a dor se soubesse que a está buscando, mas ele frequentemente acontece como uma tendência natural da existência dessa dor que desordena o mundo e também as nossas consciências. Isso acontece primariamente porque essa dor pode se dar de várias formas, não apenas na dor física ou mental literal, mas também como em certas formas de egoísmo, cobiça etc. Para um ser humano que viveu excessivamente dentro desses universos, tais dores podem passar a parecer algo desejável—não porque o são, mas porque passou tanto tempo longe da realidade efetiva que esqueceu o motivo pelo qual não são (por exemplo, que o egoísmo, mesmo quando “justificado”, leva a conflitos que seriam evitáveis etc.). E assim passamos a ter comportamentos que são evidentemente nocivos, mas ainda assim o fazemos: falamos coisas que não gostaríamos de falar e fazemos coisas que não gostaríamos de fazer; mesmo quando temos a percepção que não gostaríamos de fazer ou falar aquilo, ainda assim o fazemos—frequentemente porque estamos tão distantes da realidade que nos esquecemos do que há de bom nela, e quando nada parece bom parece justificável fazer o errado (às vezes para aliviar um pequeno sofrimento temporário, etc.). Isso é excepcionalmente notável em pessoas que maltratam seus companheiros e amigos (frequentemente se arrependendo poucos segundos depois); ora, se o amor é a maior de todas as virtudes, não há nada que justifique tal comportamento—toda situação que surge, não importa o quão devastadora e desafiante, deve ser vista como uma oportunidade de demonstrar o seu amor e não o contrário (e isso também é outra tangente a ser explorada no futuro).
Portanto, devemos aprender a prática de permanecer presentes, pois desejamos sempre permanecer ancorados na realidade e buscando sempre as virtudes e não as dores, e sempre remoldando os nossos “universos fictícios” para corresponder ao que a realidade realmente é, e não uma versão deturpada que se criou após ter passado muito tempo dentro deles. Não buscamos eliminar nossa racionalidade, mas a harmonia deve existir em algum âmbito. Frequentemente observo que esse controle se perde de forma inconsciente (como explicado acima, ninguém buscaria a dor se soubesse que a está buscando), e portanto é desejável que torne esse “jejum” uma espécie de exercício diário.