A hierarquia das ações
Toda ação se relaciona com outra, podendo suportá-la ou prejudicá-la. E, no entanto, embora uma ação possa se tornar mais fácil por conta de outra ação feita no passado, a finalidade última nunca é a ação em si—pois a ação é, por definição, um meio para se atingir fins, e essa finalidade última à qual toda ação se submete é aquilo que entendemos como uma virtude. Uma virtude é, portanto, nunca neutra e nunca “meramente disciplinar”, pois a dimensão disciplinar cabe àquilo que suporta a virtude que são as ações.
Esse entendimento se torna particularmente importante quando vemos que as ações, ao se desvencilharem das virtudes, podem se virar para os seus opostos—os vícios. Tomemos como exemplo o autocontrole: ele é, em via de regra, tido como uma virtude. E, de fato, muitas coisas boas podem vir da pessoa que se autocontrola: pois o autocontrole leva à liberdade, e a liberdade nos permite fazer grandes coisas de forma voluntária. Mas o autocontrole não é virtude, pois tem caráter neutro, disciplinar e suportivo. Assim, é incompleto afirmar que o autocontrole é desejado: ele se torna desejado à medida que se vira para coisas boas, mas também é verdade que uma pessoa pode usar seu autocontrole para o mal: ao conquistar sua liberdade, a pessoa pode em seguida decidir voluntariamente fazer coisas más. E de fato, uma pessoa má que tem autocontrole fará maldades muito superiores àquele que é mal mas não tem autocontrole, pois este se distrairá mais facilmente com coisas que não suportam sua finalidade última (que, nesse caso, é um vício).
Assim, em uma mente formada e corretamente ordenada para o bem é possível imaginar um sistema hierárquico no qual no topo da pirâmide temos as virtudes, e logo abaixo temos as ações disciplinares ou neutras servindo de apoio para que se atinja tais virtudes. Esse modelo mental, embora pareça “óbvio” quando formalizamos em um texto, não é tão óbvio na prática—pois quantas vezes vemos pessoas abandonando as virtudes, que são as finalidades, em prol de uma medida disciplinar que deveria ser suportiva e não final? Tomemos como exemplo o cuidado com o nosso corpo, que não é secundário e é algo que todos que prezam pelas próprias vidas deveriam ter, mas, ainda assim, mesmo isso está sujeito a virtudes: pois o cuidado com o nosso corpo é vão à medida que se torna vaidade, vício no qual nos esquecemos de usar o nosso corpo para suportar as virtudes como a caridade e compaixão (por exemplo, ajudando pessoas mais vulneráveis a carregar algum tipo de peso físico) e em vez disso torna-se uma espécie de “marketing biológico” que, na melhor das hipóteses, terá poucos propósitos (ou propósitos não definidos) e na pior terá propósitos maliciosos como iludir.
Portanto, é de extrema importância que cultivemos bons hábitos, mas nunca perdendo de vista as virtudes que esses hábitos buscam suportar. Assim entenderemos as situações em que agir de determinada forma não é justificável (pois nunca é justificável desvencilhar-se das virtudes, mas pode ser justificável desvencilhar-se de uma disciplina se ela te atrapalha na aplicação de uma determinada virtude) e também nos lembraremos daquilo que realmente deve ocupar nossa mente: pois embora na vida prática a ocupemos com ações, é importante que também de vez em quando nos lembremos daquilo que é o nosso norte real, pois é desse norte que vem a felicidade e todos os prazeres reais da vida.