Equilíbrio
Eu olho ao meu redor e vejo desprezo: uns desprezam o intelecto e invenções humanas, afirmando ser “contra a ordem natural”; outros desprezam a ordem natural, afirmando ser “contra o intelecto humano”. Uns desprezam a vida simples, afirmando “com certeza há mais a se viver”; outros desprezam a vida complexa, afirmando “ser muito turbulenta”. Uns desprezam os apegos, afirmando “causar sofrimento”; e outros desprezam o desapego, afirmando “o mundo material é o que há”.
Mas o homem equilibrado e prudente vê em tudo um meio termo. É fato que, em tudo aquilo que o ser humano faz ou tem desejo de fazer, há algum “aspecto da verdade”. E portanto, não se deve desprezar o fato que ambos podem estar justificados ao mesmo tempo que um busca uma vida mais simples e outro busca a vida mais complexa. Mas se a verdade é objetiva, não se pode afirmar que o simples e o complexo ao mesmo tempo são bons—em vez disso, precisamos entender que a verdade é um meio termo que se situa entre os dois.
Tomemos como primeiro exemplo o intelecto e as invenções humanas. Alguns afirmam “violar a ordem natural”, e assim tentam abolir de qualquer forma esses aspectos de suas vidas. Ora, o intelecto não foi dado aos homens por sua própria natureza? E, sendo assim, o intelecto e as invenções que ele trouxe não são, de certa forma, também parte da natureza, tal como um chimpanzé pode usar uma pedra como uma ferramenta para abrir uma fruta? Mas também é verdade que o extremo oposto é perigoso: pois um chimpanzé usa ferramentas mas não nega a sua natureza e não se esquece (de uma forma simples e instintiva) o propósito final ao qual essas ferramentas se destinam; já os homens, tendo um intelecto superior ao chimpanzé e podendo criar invenções muito maiores, correm o risco de se esquecer o propósito final ao qual essas ferramentas se destinam, e aí vemos o problema de invenções enganosas, mentirosas, falhas e que subvertem a dignidade humana. O homem equilibrado situa-se entre os dois: ele valoriza o intelecto e as invenções humanas, mas reconhece a importância de não perder de vista qual é o propósito desses dons; e assim, ele diariamente pensa e cria, mas nunca chegando no extremo de inverter seus propósitos.
E quanto à complexidade da vida? É fato que vivemos em tempos complexos e somos constantemente incentivados a ocupar nosso tempo com coisas vãs. E assim, pode-se passar a odiar a complexidade, pois vemos que essas complexidades vãs não trazem frutos. E, de fato, quando o homem tira férias e vai para as montanhas, sente-se em casa: porque vivia num estado tão complexo que se esqueceu a finalidade última dessa complexidade, e assim naquele momento ele precisava de simplicidade. Mas também é verdade que a simplicidade, quando em excesso, é desalinhada com o propósito natural do homem, e isso é algo que qualquer um que já passou tempo demais fazendo nada reconhece bem. Pois o homem deseja criar, conectar-se com pessoas, servir a sua comunidade da forma como pode, e isso é parte de nossa natureza também. O homem equilibrado situa-se entre os dois: ele valoriza que na simplicidade há a natureza, a contemplação, a vida presente, mas reconhece que na complexidade há a criação, o bom esforço e a servitude voluntária.
E quanto aos apegos? Alguns afirmam que apegos em excesso criam sofrimentos. E de fato, quase tudo o que temos na vida é temporário: nossos corpos podem se degradar, nossos bens materiais podem se desgastar ou se perder, nossas relações humanas podem acabar; quando se cria apego a esses bens temporários, o fim deles gerará sofrimento. Mas no outro extremo, uma vida totalmente desapegada de qualquer coisa também se desapegaria de qualquer virtude: o homem deve desejar se tornar uma casca vazia? Não é bom que busquemos o bem, ou fazer aquilo que podemos em cada situação, ou que busquemos nos aprimorar a cada dia que passa? O homem equilibrado situa-se entre os dois: ele vê o perigo do excesso de apegos, e assim redireciona seus apegos para os lugares corretos.
Onde a consciência humana apontar, haverá alguém tentando construir um portão para que possa cobrar pela entrada—mas isso significa que não é desejável irmos para onde a consciência humana aponta? Evidentemente não. Portanto, não sejamos como os que desprezam: enxerguemos o bem que há em cada situação, para que assim possamos ter, na medida do possível, uma vida equilibrada.