Quantas vezes fazemos aquilo que não desejamos pois temos consciência que, no fim, trará felicidade? Nesse sentido, às vezes nossas ações podem ser como remédios: amargos no curto prazo, mas prazerosos no longo prazo, pois a doença não nos traz felicidade. Um exemplo comum é a atividade física, que é indesejada no curto prazo pois bate de frente com nossos maus hábitos tal como a preguiça e a vontade de evitar a dor.

E assim nos situamos em uma linha tênue. Por um lado, não queremos fazer aquilo que nos traz felicidade; por outro lado, frequentemente o fazemos. Mas se não o desejamos fazer, por que o fazemos? Alguém poderia argumentar que “a capacidade de vislumbrar o longo prazo prazeroso e aceitar o curto prazo de sofrimento é parte também de nossa própria capacidade”, e isso até pode ser verdade em alguns casos, mas eu duvido que seja verdade sempre, pois para isso teria que se partir do pressuposto que o ser humano tem a plena capacidade de medir o prazer do longo prazo e, comparando-o ao prazer de curto prazo, escolher o maior dentre os dois. Não. Nossa capacidade de medir os prazeres é frequentemente limitada por nossas paixões desordenadas, e assim, quando escolhemos esse prazer de longo prazo, frequentemente o fazemos sem saber de fato a extensão que esse prazer tomará; e, de forma análoga, quando escolhemos o prazer de curto prazo o fazemos de forma ativa porque parece mais lógico do que escolher um prazer longínquo do qual não sabemos a extensão. É apenas possível concluir que, quando escolhemos sacrificar o curto prazo, a força que nos compeliu a fazê-lo não pode vir de nós mesmos. E de fato, frequentemente o prazer de longo prazo não é superior ao prazer de curto prazo, mas ainda assim é o único tipo de prazer que nos satisfaz. Assim conclui-se que não apenas essa força não vem de nós mesmos, mas também que essa mesma força regula a medida em que os prazeres devem ser tomados.

O momento em que escolhemos nos negar prazeres não deve, portanto, ser visto como um tormento, mas como uma fonte de grande felicidade. Pois é nesse momento em que essa mesma força, que é Deus, decidiu nos guiar para um ponto que não poderíamos ter deduzido por nossa própria razão, e é nesse momento que sabemos que estamos sendo guiados por alguém maior do que nós. Não apenas devemos nos sentir felizes por conta da própria trajetória que Deus está nos levando, mas também por sermos constantemente lembrados da existência dele. E, assim, cada dia é um constante lembrete de nossa mediocridade. Pois queremos aquilo que nos destrói, e isso frequentemente não é um ato de mera ignorância mas um cálculo ativo. Portanto, toda vez que fizermos algo de bom, lembremo-nos, com toda a honestidade, que esse ato não é fruto nosso. E assim vivamos com firmeza mas também com humildade: firmeza porque sabemos o caminho correto, mas humildade porque quem desenhou e descobriu o caminho não fomos nós.