Por algum tempo, eu vivi em uma dicotomia em relação aos entretenimentos: em minha vida privada, eu conseguia me controlar e aproveitá-los sem que se tornassem um vício. No entanto, ao me relacionar extensivamente com outras pessoas, em prol da “socialização” eu voltava aos maus hábitos: permitia-me o excesso de comida, desregular o horário do meu sono, etc. E, para mim, parecia justificável, pois é fato que hábitos disciplinares não existem para que eu sirva a mim mesmo mas aos outros—logo, de que adianta se eu não abrir exceções aqui ou ali?

Percebi, contudo, que essa era uma falsa dicotomia. Primeiro porque ao abrir essas exceções eu não estava servindo a ninguém—muito pelo contrário; além de estar causando dano a mim mesmo, também estava contribuindo para que essas pessoas, meus amigos, também ficassem nesse mesmo estado. Mas meu ego certamente encontrava todo tipo de desculpa para afirmar a mim mesmo que, de alguma forma, eu estava servindo a um propósito maior: “olhe quantas boas conversas surgiram disso!”. Mas segundo porque eu afirmava para mim mesmo que esse seria o único caminho, quando na verdade não é: por que não desenvolver com seus amigos hábitos que de fato edifiquem os dois lados em vez de destrui-los, e assim atingindo o mesmo propósito de socialização mas por outras vias melhores?

A verdade é que há dois motivos pelos quais desejamos nos relacionar com pessoas que não tenham hábitos bons. O primeiro, já aludido acima, é quando nosso ego deseja usar essa situação como desculpa para nos submetermos às nossas fraquezas, e isso evidentemente é uma situação indesejada. O segundo, mais virtuoso, é um senso de caridade que nos faz de alguma forma querer ajudar aquela pessoa—no entanto, esse motivo facilmente se torna o primeiro se em vez de ajudar nós apenas agravamos a situação; ora, que forma melhor há de ajudar senão pelo exemplo? Portanto, viver uma situação de entretenimento mas de forma controlada é sempre o caminho mais desejado nesse segundo motivo.

Se concluímos que o entretenimento destrutivo é indesejado, temos que reconhecer também que qualquer relação em que seja impossível trocar o entretenimento destrutivo por um entretenimento edificante será também uma interação indesejada por consequência. Portanto, não devemos nos submeter ao nosso ego—que deseja manter a relação, mas de forma tóxica com o intuito de criar vícios—, mas nos afastar. E isso também exige uma certa firmeza, pois se afastar não é fácil, mas nessa circunstância seria o caminho correto. Afastar-se, no entanto, torna-se mais fácil à medida que estamos genuinamente desapegados com esse ego (e isso é algo que vem por consequência de viver uma vida correta), pois é ele também quem cria os motivos para que desejemos cultivar relações tóxicas (como o desejo de impressionar outrem de forma desconexa; a impressão, quando surge verdadeiramente como reflexo de um ato correto, é desejada, mas frequentemente desejamos impressionar apenas refletindo no exterior um valor que não acreditamos ou praticamos de fato).