Para o justo, é natural que ele deseje a justiça. E para o injusto, é natural que ele deseje a injustiça. Assim, de forma geral, é natural que toda pessoa deseje ver no exterior aquilo que ela mesma é. Mas as coisas não param apenas no desejo, pois todo aquele que genuinamente deseja algo também irá trabalhar para que aquele algo se torne realidade. E assim, também é natural que cada pessoa se esforce para moldar cada situação de acordo com aquilo que ela é.

Portanto, é também natural que todo ser humano tenha inicialmente um desejo por controle. Pois quando controlamos a situação em todas as dimensões até o menor detalhe, assim podemos moldá-la de acordo com aquilo que desejamos. No entanto, curiosamente, frequentemente as situações que mais tentamos controlar são as que mais fogem de nosso controle, e as que menos tentamos controlar são as que mais permanecem sob o nosso controle. E assim, quanto mais tentamos cultivar a justiça, mais ela foge de nosso alcance. Devemos com isso concluir que esse desejo por moldar cada situação é ruim? Deve o justo cultivar a injustiça, de forma que assim a justiça prevaleça? De forma nenhuma, pois nesse caso mesmo se a justiça prevalecesse essa pessoa seria excluída, pois não mais se encaixaria naquele sistema.

Assim, o problema não está no anseio por uma virtude, mas em algo em nós que nos desvia daquilo que é o nosso objetivo. E isso não significa que o nosso objetivo seja ruim, mas que precisamos mudar a abordagem para chegar até ele. De fato, hoje estou plenamente convencido que tentar controlar menos cada situação e aceitá-la com suas qualidades mas também com seus defeitos é a melhor forma de atingir cada objetivo. Mas a partir dessa colocação surgem duas dúvidas: a primeira é, dada cada situação, como podemos garantir que nos esforçar menos para controlá-la até o mais minucioso detalhe irá nos levar a um bom fim; e a segunda é, caso eliminemos por completo esse desejo por controle absoluto, como tomaremos decisões práticas no cotidiano. Essas são as duas perguntas que eu responderei no resto do texto, e, na verdade, como demonstrarei a seguir, essas perguntas são mais relacionadas do que parecem e a resposta para as duas é a mesma.

Primeiro precisamos entender que uma virtude, sendo objetiva, não vem de nós mesmos, pois, caso viesse de nós mesmos, seria um valor subjetivo do qual outros poderiam discordar. Ao contrário: o que torna uma virtude uma virtude é o fato de não haver discordância, tanto que qualquer estado que contenha essa virtude será universalmente aceito por qualquer ser humano como um estado desejável. Caso discorde disso, então nenhuma discussão acerca de tomada de decisões fará sentido, pois também significa que qualquer estado seria aceito dado que estivesse disposto a fazer as contorções necessárias na sua perspectiva.

Segundo precisamos entender que, se uma virtude não vem de nós mesmos, então há algo ou alguém que a definiu. Esse algo ou alguém, que transcende tudo aquilo que existe—pois tudo aquilo que existe está abaixo dos valores objetivos—não só definiu essas virtudes, mas esse algo ou alguém É a própria definição das virtudes, pois dizer o contrário significaria dizer que houve um momento em que essas virtudes foram criadas de acordo com uma consciência subjetiva. Não: se elas são objetivas, então elas sempre existiram, e se sempre existiram elas emanam daquele que É a fonte de tudo aquilo que existe.

Assim, a resposta para uma das perguntas se torna trivial: caso eliminemos por completo esse desejo por controle absoluto, como tomaremos decisões práticas no cotidiano? Não de acordo com nossa própria consciência, que é falível e frequentemente se desvia daquilo que realmente desejamos. Mas de acordo com esses valores objetivos que vêm diretamente de Deus, não criados mas impostos pela própria natureza da sua existência. Mas disso surge uma outra pergunta: se tudo aquilo que sabemos, sabemos porque de alguma forma passou por nossa percepção e intelecto, então é impossível que um valor objetivo seja plenamente compreendido em sua total magnitude de forma totalmente isolada à nossa consciência, e isso é uma coisa que explorarei mais no final desse texto.

Mas, antes de desviarmos muito, voltemos para a outra pergunta que fizemos anteriormente: como garantir que essa falta de controle total não nos levará a um fim ruim? Ora, essa pergunta também se tornou trivial: se somos guiados por valores que vêm de Deus, não é possível que nos leve para uma finalidade ruim, pois ele é a definição de bom. Assim, não precisamos nos preocupar e nos tormentar com pensamentos de “que tipo de pessoa eu estou cultivando?” se as suas ações são definidas por aquele que é a definição de bom—o resultado será naturalmente bom e isso será naturalmente perceptível pelas pessoas.

Voltemos, então, para o último ponto que ainda ficou em aberto: a questão de como discernir nossa interpretação subjetiva dos valores objetivos, pois mesmo os valores objetivos também passam pelo nosso intelecto antes que possamos absorvê-los. De fato, essa eu considero a questão mais difícil, mas é aqui que eu considero um papel forte da consciência. Pois acreditando que Deus quer nos guiar para Ele, também acredito que ele nos deu uma consciência que fica insatisfeita com situações que não estão de acordo com esses valores. Mas o problema real é que frequentemente essa consciência é ocupada por ruídos que nós mesmos criamos, e assim jogamos uma sombra sob as respostas reais que ela está tentando nos dar. De fato, eu aprendi que no silêncio se aprende muito sobre diversos valores, e acho que esse é no fim das contas o principal problema: evitamos o silêncio porque não queremos perder o controle, mas é apenas perdendo o nosso controle humano e falível que vamos nos colocar sob a mercê de Deus e genuinamente passar a ouvi-lo e agir de acordo com a sua vontade.