Acordei hoje com o firme desejo de me presentear com algum prazer no fim do dia. Eu mereço, afinal, a semana foi cansativa e trabalhei muito. Decidi que vou preparar um grande jantar e assistir a um filme. É, essa ideia me parece excelente. É bom às vezes distrair a cabeça com um pouco de prazer depois de trabalhar tanto.

O dia de trabalho seguiu como esperado. Uma caixa para empilhar aqui, outra ali, e algumas mercadorias para descarregar do caminhão que acabou de chegar. Cansativo, mas nada fora do normal. E durante todos esses momentos, não parei de pensar em nenhum momento sobre como minha noite hoje será excelente, disso tenho certeza. Apenas por hoje, irei me permitir tudo aquilo que geralmente evito: comprarei bebidas, e salgadinhos, e pizza, e doces de todos os tipos. Será uma das melhores noites da minha vida, isso é certo.

E finalmente empilho a última caixa. Acabou o expediente. Agora, antes de ir para casa, passarei no mercado e deixarei que minha mente navegue livremente nesse oceano. E assim o fiz: e a cada segundo, não pude deixar de pensar como será prazeroso quando eu finalmente eu chegar em casa e preparar todas as coisas que comprei e relaxar nesta bela sexta-feira, tendo a consciência tranquila de que não preciso me conter pois não trabalho amanhã. Será uma noite a ser lembrada, quanto a isso não há dúvidas.

E chego em casa. Quase posso sentir Deus falando comigo: “apenas por hoje, meu filho, divirta-se”. E me divertirei. Com certeza será uma noite memorável. E enquanto preparo todas as comidas, mal posso conter a antecipação, que em breve deixará de ser antecipação e se tornará realidade. Mesmo que apenas por uma noite, serei como um rei em uma noite de festividade: aliás, tenho certeza que até um rei sentiria inveja se me visse nesse momento.

E sento no sofá. Primeiro façamos a escolha do filme: o catálogo hoje está lotado de filmes de comédia pastelão, terrores de baixa qualidade e filmes de ação tão genéricos que parecem todos cópias uns dos outros. Droga, essa sempre é a parte mais chata de assistir a um filme: os infinitos minutos que passam até que eu finalmente encontre uma pérola perdida em meio a tantas porcarias. E a todo momento estou antecipando o prazer que virá muito em breve. Preciso apenas encontrar um bom filme. E certamente um bom filme virá logo, não é possível que não haja um em meio a tantas dezenas.

Ah, finalmente! Eis aqui um filme digno de ser assistido: um filme de história que conta a vida de um rei medieval. Um filme cheio de tramas, momentos heróicos, um enredo cativante e na internet os críticos falaram muito bem dele. Esse é o filme. Agora finalmente vem a minha tão merecida dose de prazer. E que comece a festa!

Agora basta eu relaxar. A qualquer momento, o prazer será tão grande que serei como um faraó no ápice do império egípcio. Pego uma fatia crocante de nacho, e enquanto mastigo o filme vai passando. Não consegui entender o que o protagonista acabou de falar, mas não tem problema: o nacho estava uma delícia! E pego outro, e mais um. Há algo mais que eu poderia desejar?! Essa noite é uma verdadeira festa!

O filme já está passando há uns 15 minutos, e já tomei duas doses de whiskey. Também comecei a comer alguns doces: tem brigadeiros, biscoitos, e tudo mais que um homem poderia desejar. Só por hoje, pois essa é uma das melhores noites da minha vida, disso tenho certeza. O filme continua passando, e aparentemente o protagonista entrou em guerra contra sei lá quem da Europa, acho que é um rei também. Não sei. A verdade é que não prestei muita atenção. Mas não importa, porque o prazer que estou tendo é gigantesco. O objetivo do filme, assim como qualquer outra arte, não é me dar prazer? Então pouco importa se eu aproveitar esse momento de uma forma, digamos, menos ortodoxa do que a pretendida. E que continue a festa!

Agora estamos nos 40 minutos do filme, e recebo uma notificação no meu celular. Aquela moça com a qual eu venho conversando online me mandou uma mensagem, e nesse momento meu coração pula! Hoje é verdadeiramente um dia de festa! Conversamos por um tempo. Ah, mas que conversa maravilhosa! Ela é uma pessoa tão agradável. Mandei para ela algumas fotos da festa que estou tendo. Ela perguntou sobre o quê era o filme e eu apenas mandei a sinopse que estava escrita na internet, porque honestamente nem eu sei mais o quê está rolando. O protagonista aparentemente morreu, e pela trilha sonora imagino que isso era para ter sido um acontecimento triste, mas para mim é impossível ser triste hoje!

A moça parou de me responder. Aparentemente eu estava muito bêbado e falando nada com nada. Poxa, para mim a conversa estava agradável. Mas continuo a comer, e o filme continua a tocar, e não deixarei por causa dela o meu dia dela acabar.

O filme, que aparentemente era bom, terminou. Mas eu achei uma porcaria. Não sei, acho que a história é meio confusa. Esses filmes antigos exigem foco demais da gente. A comida também está acabando: sobraram algumas fatias de pizza e um pouco de bebida. Mas acho que não estou mais com vontade de comer. A verdade é que fiquei meio enjoado. Essas comidas hoje em dia são todas feitas com ingredientes industrializados, acho que isso não faz muito bem pra saúde. E nem é tão gostoso. E ainda teve a moça que parou de me responder: logo eu, que sou um homem trabalhador, esforçado, gentil. Ah, e só de pensar que segunda-feira preciso voltar para o meu trabalho e sair dos prazeres do meu lar. Prazeres? Mas, sendo bem honesto, acho que essa noite não foi tão prazerosa assim. Talvez eu deveria mesmo era voltar para o trabalho. É bom às vezes trabalhar para distrair um pouco a cabeça.

As coisas dessa vez não ocorreram como eu gostaria. Mas a próxima vez será melhor, disso eu tenho certeza.