A priori
Frequentemente, as tentações nos afetam não porque não temos forças para superá-las, mas porque genuinamente as desejamos. Por definição, é impossível superar algo que você deseja, pois superar implica em fazer aquilo que você considera melhor em cada dada situação, e aquilo que você considera melhor é aquilo que você deseja (pois, se genuinamente não considerasse de alguma forma bom, não o desejaria). Assim, deixamos de considerar a tentação como uma tentação e, em nossa mentalidade desordenada, passamos a tratá-la como uma espécie de virtude.
Portanto, lutar contra as tentações é uma luta vã se não for alinhada com um princípio de ordenar nossa mente. Podemos falar que, por exemplo, gula é um comportamento desordenado, mas quando nos aparecer a oportunidade de sermos gulosos, se não genuinamente considerarmos a gula como uma desordem, desejá-la-emos. E quando temos a tentação logo na nossa frente é difícil de considerá-la genuinamente como uma desordem, pois em nosso desequilíbrio olharemos apenas para as partes positivas daquela tentação (que certamente existem, afinal, se não existissem não seriam tentações pois não seriam atrativas).
Nesse sentido existe um bom espaço para que decisões sejam feitas a priori. Pois quando a situação aparecer na nossa frente, somos genuinamente incapazes de tomar uma boa decisão. Por exemplo, posso decidir hoje exatamente tudo aquilo que irei comer amanhã, de forma que amanhã não precisarei tomar decisão nenhuma. E, quando o amanhã chegar, não importa quantos motivos eu tenha para mudar a minha decisão, devo permanecer com ela. Aliás, devo permanecer com essa decisão mesmo que ela tenha sido objetivamente errada em alguns pontos: talvez ter comido X em vez de Y seria objetivamente melhor para a minha saúde. Mas o ponto aqui não é corrigir essa decisão hoje, pois corrigir hoje implica em me permitir tomar decisões na hora, e tomar decisões na hora eventualmente irá voltar para me punir quando minha mente desordenada genuinamente passar a desejar vícios.
Devemos, então, permanecer para sempre com as decisões ruins que tomamos? De forma nenhuma. Mas é desejável que a decisão seja feita sempre a priori: se por algum motivo percebemos que eu tomei ontem para ser feita hoje foi um erro, então que eu tome uma decisão nova para ser feita amanhã em vez de modificar a decisão de hoje.