Acédia
Com a criação dos celulares, computadores e videogames, encontramo-nos em uma situação que é, para dizer o mínimo, tremendamente bizarra. Isso porque essas criações introduzem distrações que gastam tão pouco esforço que de alguma forma estar em um estado de acédia parece ser mais produtivo!
Vejamos um exemplo prático: hoje em dia, com tantas distrações e “dopamina gratuita”, nós nos sentimos produtivos quando fazemos qualquer coisa que não seja ficar no celular. Chega ao ponto que, para uma pessoa que passou a manhã inteira doom scrolling, sair para conversar com os amigos parece produtivo. E, de fato, às vezes sair com os amigos pode ser uma genuína forma de descanso. Mas vejamos o outro lado da moeda: estamos tão ocupados com as distrações preguiçosas que sair para descansar de alguma forma parece produtivo! Dado que o fenômeno da acédia (a “distração”, isto é, fugir das suas responsabilidades por meio de atividades secundárias e que têm pouca importância) foi descrito por diversos santos da Igreja muito antes de qualquer invenção tecnológica, eu parei para me perguntar como seria o cotidiano de uma pessoa imersa na acédia alguns séculos atrás. E o que consegui deduzir é que, muito provavelmente, esse tipo de pessoa se encheria muito de:
- Espetáculos públicos;
- Fofocas;
- Festas;
- Exercícios físicos;
- Comidas e bebidas.
- Entre outros.
O fato é que, muitas dessas atividades acima hoje em dia são vistas como produtivas. Quando saímos do celular e vamos a um teatro, e depois do teatro encontramos um amigo para ir tomar um café, e então passamos horas e horas conversando sobre a vida, e então vamos fazer uma caminhada juntos, e então encerramos o dia indo a uma festa: para um olhar superficial, esse dia pode parecer “produtivo”. E, de fato, pode ser que tenha sido caso realmente precisássemos de um descanso; mas, olhando por outro lado, o fato é que no fim do dia não produzimos nada. E não me refiro aqui apenas à produção econômica, que é importante mas muitas vezes também é secundária, mas sim a qualquer tipo de produção que genuinamente nos edifica: seja econômica, espiritual, filosófica, artística, etc. Esse cotidiano que descrevi era exatamente o cotidiano de alguém que, até poucos séculos atrás, era criticado como um “escravo da acédia”, e ainda assim hoje em dia nós louvaríamos alguém assim, pois, se o tempo dele está ocupado, ele não é escravo da preguiça—logo, eis aqui a prova que a acédia é muito mais abrangente do que a preguiça.
E quando fazemos qualquer coisa que não seja uma distração preguiçosa, frequentemente abandonamos essa atividade após 20-30 minutos. Pois em um mundo tão orientado à dopamina, as decisões são frequentemente tomadas a fim de evitar o tédio. Uma pessoa que alterna entre atividades produtivas, mas alterna com frequência e portanto no fim das contas também não produziu muita coisa pode até ter vencido a “distração preguiçosa”, mas não venceu a acédia: pois esse desejo por constantemente alternar atividades é sintoma de acédia. É um desejo de fugir das responsabilidades reais, mas que se torna menos visível pois ele está escondendo a responsabilidade real atrás de atividades que de alguma forma parecem contribuir para aquela responsabilidade, mas que no fim das contas não contribui de forma significativa. Devemos, portanto, tomar as decisões mais com base em critérios objetivos e menos com base no tédio: exaustão, por exemplo, é um motivo real para parar para descansar.
Portanto, sim, é desejável que combatamos as distrações preguiçosas, mas isso não é o suficiente. É necessário, acima disso, combater também a acédia: o descuido com o nosso foco que faz com que fujamos daquilo que consideramos importante. Pois é perfeitamente necessário ocupar o seu tempo com coisas que demandam esforço, mas são igualmente fúteis.