Em meu texto anterior “a priori” eu argumentei como uma decisão deve, idealmente, ser tomada antes do ato e não na hora. E, de fato, embora haja exceções que falarei adiante, no geral é preferível que se mantenha a decisão que foi determinada previamente, mesmo que ela esteja errada. É preferível pois a alternativa seria passar a confiar demais em nossas mentes, que no futuro é um hábito que nos prejudicará. Ao confiar na decisão tomada previamente, eu confio naquela decisão que, embora possa ter sido a errada (ou talvez no mínimo uma decisão não ideal), é uma decisão que idealmente tomei em um momento de mais calma e me fará não confiar demais naquilo que eu decido no calor do momento.

Portanto, a tomada de decisão, quando feita de forma madura, funciona da seguinte forma: a decisão deve ser tomada previamente e, em seguida, obedecida independente do quanto gostamos ou do quanto sentimos vontade de fazê-la. Assim, estamos constantemente treinando para agir de forma independente daquilo que nosso coração deseja. No entanto, uma objeção válida seria: se nossos corações no fundo desejam aquilo que é bom, não é prejudicial que façamos aquilo que é contrário aos nossos desejos? Eu respondo essa objeção em duas partes.

A primeira parte é que, como já falado acima, é preferível que se crie uma certa independência daquilo que decidimos no calor do momento. É preferível que, como hábito, confiemos na decisão que foi tomada em um momento de calma. E, se essa decisão se provar errada, podemos revisá-la para nossas próximas ações, mas não devemos, idealmente, revisá-la para a nossa ação atual, ao não ser em caso de grave necessidade de fatores que genuinamente não podíamos ter previsto antes ou caso a decisão se comprove estar gravemente errada.

A segunda parte é que, às vezes, a decisão pode estar certa mas esse desejo de não fazê-la vem de uma desordem de nossa mente. Nesse caso, ao fazê-la mesmo não sendo nosso desejo, ocorrem duas coisas: primeiro, nós vemos a beleza que há naquela decisão (pois, se é a decisão certa, de alguma forma ela deve ser bela) e assim lentamente reordenamos a nossa mentalidade e desejo. E a segunda é que podemos descobrir coisas que não havíamos inicialmente previsto, pois frequentemente é o caso que essas ações que não desejamos fazer são justamente aquelas que envolvem fatores desconhecidos.

Nada disso diminui de forma nenhuma o fato que nosso gosto pode, até certo ponto, indicar as ações corretas para uma mente bem ordenada e bem formada. Mas também nos ajuda a constantemente relembrar que tomar decisões no calor do momento geralmente nos faz tomar decisões erradas, e também que nossa consciência precisa de formação contínua; e assim, às vezes faz sentido fazer aquilo que não gostamos. Assim, há pouco a perder e muito a ganhar ao obedecermos aquilo que nós mesmos estabelecemos previamente. Conforme mencionei, há exceções a essa regra, mas são poucas e estão enumeradas acima.